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	<title>Pílulas de Ficção</title>
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		<title>Estevão</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Nov 2011 00:34:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A questão é a seguinte: sou uma pessoa atenta a oportunidades. Pode me chamar de empreendedor, se quiser. Embora, para falar a verdade, acho essa história de atualmente tudo ser chamado de empreendedorismo uma bobagem. O que eu posso dizer sobre &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2011/11/19/estevao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=81&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A questão é a seguinte: sou uma pessoa atenta a oportunidades. Pode me chamar de empreendedor, se quiser. Embora, para falar a verdade, acho essa história de atualmente tudo ser chamado de empreendedorismo uma bobagem.</p>
<p>O que eu posso dizer sobre mim é que ao ver uma boa oportunidade, vou atrás. Faço todo o possível, e até um pouco mais, para a oportunidade virar realidade. Sempre fui assim, desde criança. Fiz disso o meu trabalho por eu não saber ser de outra forma. No fundo, sou um jogador. A diferença com outros apostadores é que não me interessam os jogos de azar, mas ações, empresas, negócios, eventos.</p>
<p>E não se trata exatamente de gostar de sentir aquele frio no estômago, da adrenalina da aposta. Estaria faltando com a verdade se desse a entender isso. Não sou aventureiro. Não é esse, definitivamente, o ponto.</p>
<p>E, veja bem, tampouco me é indiferente perder, ou ser rejeitado, ou ter que admitir que fui idiota e que minha avaliação inicial revelou-se um equívoco contundente. Sofro, sim, quando as coisas não ocorrem como previ. Mas sei que sofrerei mais se concluir, depois, que aquela era de fato uma grande oportunidade e que eu deixei escapar por não ter assumido o risco.</p>
<p>É isso. Era isso o que eu queria explicar sobre mim: tenho mais medo de me sentir um fracassado por não ter tentado do que de ter a tristeza de perceber ter me iludido com algo que não era o que parecia ser. – <em>Bebe o expresso num gole e olha para a xícara antes de prosseguir </em>– Você deve estar se perguntando por que a chamei para tomar um café e dizer isso tudo para você, nesse momento.</p>
<p>Eu estou falando isso porque vi em você uma boa oportunidade. A melhor desde que me separei, há quase dois anos. Você é interessante, espirituosa, gentil, divertida, inteligente, boa companhia. E me parece ser uma pessoa centrada, daquelas para quem estar com o outro é um prazer e não uma necessidade.</p>
<p>Sei que não sou um homem bonito, nem estou lá em grande forma. Não tenho muito a oferecer num primeiro momento além da minha franqueza.</p>
<p>E quero dizer que eu também sei ser romântico. Não fiquei casado catorze anos tratando minha mulher como se ela fosse um negócio. Claro que não. Sei que as mulheres gostam de romantismo e uma outra abordagem seria mais eficaz. Se digo isso tudo assim de supetão é porque eu tenho um vôo para pegar daqui a pouco e precisava falar isso antes de ir.</p>
<p>A viagem é importante. Pode ser que eu feche um bom negócio. Eu poderia, simplesmente, pedir o seu email com a desculpa de querer depois a referência de um livro ou algo assim. E aí começaria o flerte, como já fiz outras vezes.</p>
<p>Mas, justamente por achar que você é a grande oportunidade, não faz sentido para mim fingir que quero outra coisa. Então foi por isso que falei tudo o que falei. Para perguntar se posso tentar conquistá-la.</p>
<p>Se você disser que não, vou ter que pensar rápido e avaliar a situação: deixo o outro negócio escapar, entrego a chance para um concorrente, e fico aqui até convencê-la, ou embarco, passo duas semanas fora e, aí, até eu voltar, você já pode estar com outra pessoa. Se isso acontecesse, eu teria perdido a possibilidade de viver o que acho que podemos construir.</p>
<p>É um risco que terei que assumir. É um risco que assumo consciente. – <em>faz um gesto para o garçom, pedindo que feche a conta</em> – E então, posso ou não entrar no carro e zarpar para o aeroporto?</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/81/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=81&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ana Clara</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Aug 2010 13:54:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Ana era experiente, marcada, desiludida. Tinha vivido, se entregado e perdido. Chorado, tentado, feito concessões, chegado ao seu limite, esquecido. Clara era jovem, apaixonada, sonhadora. Mesmo quando não tinha ninguém específico em vista. Acreditava no futuro e no amor. Via &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/08/22/ana-clara/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=74&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ana era experiente, marcada, desiludida. Tinha vivido, se entregado e perdido. Chorado, tentado, feito concessões, chegado ao seu limite, esquecido.</p>
<p>Clara era jovem, apaixonada, sonhadora. Mesmo quando não tinha ninguém específico em vista. Acreditava no futuro e no amor. Via beleza na vida. Sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria o homem com quem partilhar sua história, suas emoções, suas dúvidas, suas questões, seus pequenos sucessos, seus fracassos.</p>
<p>Ana protegera-se. Acreditava que amor seria sempre ilusório. Uma invenção cultural. Uma utopia só possível de existir se as duas pessoas estivessem muito determinadas a acreditarem nela. A monogamia  não seria natural, mas culturalmente determinada&#8230; No entanto, seríamos seres culturais, estando fadados a sofrer com desejos duplicados, traições, insatisfações. Com o tempo o desejo sempre diminuiria, a rotina se instalaria, as responsabilidades partilhadas afastariam o casal e a felicidade escorreria. Ana teorizava ao invés de sentir.</p>
<p>Para Ana, Clara era ingênua. Sorria para ela, pensando, em seu íntimo, que um dia Clara superaria essa fase. A juventude era sempre adorável, cheia de projetos, esperanças. A juventude acreditava no potencial transformador dos indivíduos sobre a humanidade. Mas isso passava.</p>
<p>Clara queria a paixão.  Queria romance e não namoro. Queria sentir-se desejada. Queria flores, mimos, chocolates, voz derretida ao telefone, sexo gostoso, palavras doces, emails fofos. Queria ser lembrada nas pequenas coisas e momentos do dia, ser o primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir. Queria que, a cada vez que o outro experimentasse uma comida gostosa, visse um filme bom, tivesse uma boa notícia, quisesse dividir com ela. Clara queria estar nos detalhes. Mas, queria, também, partilhar a vida, dividir as grandes e pequenas coisas cotidianas, consolar e ser consolada quando estivesse triste, abraçar quando viesse o choro. Dizer “tudo vai dar certo” para preocupações e momentos difíceis.</p>
<p>Ana achava que essas coisas só existiam nos primeiros três ou quatro meses de uma relação. A opção por uma relação longa inviabilizava a paixão. Para ter essas coisas, seria preciso estar sempre começando. Então, ouvia Clara e balançava a cabeça. O que ela queria era inconciliável com coisas como filhos, família, vida de gente grande.</p>
<p>Ana poupava Clara, não contava o que realmente pensava, pois, no fundo, respeitava aquele vigor, era tocada pela juventude da outra. Ela apenas dizia, “vocês, jovens”. E Clara ria. Sabia não encontrar eco em Ana, dava de ombros e respondia: “duvido que você também não queira isso”.</p>
<p>Era esse o único assunto em que discordavam. Em todo o resto sintonizavam: política, religião, futebol.</p>
<p>O problema – o principal problema – é que Ana e Clara habitavam uma mesma e única mulher.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/74/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=74&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Miguel</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 19:45:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Já estava com mais autonomia. Fora difícil, mas aprendera a sentar sem ajuda. De início, tentava se levantar puxando a cabeça e o corpo para frente; mas, talvez de tanto observar, talvez por mero acaso, talvez,  quem sabe, por ter &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/08/05/miguel/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=67&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já estava com mais autonomia. Fora difícil, mas aprendera a sentar sem ajuda. De início, tentava se levantar puxando a cabeça e o corpo para frente; mas, talvez de tanto observar, talvez por mero acaso, talvez,  quem sabe, por ter pensado uma estratégia, descobriu que bastava se virar de bruços, encolher as pernas como se engatinhar fosse, dar um pequeno impulso e pronto: estava sentado. Uma vez descoberto o mecanismo, ficara fácil. Sempre que alguém o colocava deitado, em instantes sentava. Agora era ele quem decidia, e, sentado, podia ver o mundo de frente.</p>
<p>Descobrira também, pouco depois, que, quando se apoiava em suas mãos e seus joelhos, locomovia-se mais rapidamente do que arrastando a barriga pelo chão.  E com um pouco de treino, adquirira agilidade. Teve até aquela vez na qual a mãe bobeara, esquecera a porta do banheiro aberta quando saíra do quarto para pegar a chupeta na sala e ao voltar, não encontrara ninguém por perto.</p>
<p>Ela chamara o nome dele, algumas vezes, mas ele fingira não ouvir, porque estava mais interessado em explorar o território novo, aquele lugar que sempre tinha a porta fechada na sua cara, quando estava prestes a entrar. Dessa vez, não. Quando a mãe o encontrara, ele já estava com a mão molhando-se naquele vaso branco e grande. E não entendera porque a mãe ficara brava, tirara a mão dele de lá e colocara uma e outra debaixo de mais água, que saía de um tubo prateado, enquanto ele tentava mexer naquela coisa redonda e brilhante ao lado do tubo.</p>
<p>Mas o que ele queria mesmo, era ficar em pé como todo mundo. Estava sempre procurando apoio para se levantar: o sofá, a cama do irmão, a grade do berço, a estante – que, aliás, proporcionava a satisfação extra de ligar e desligar a televisão. Sempre tinha alguém que gritava com ele, e o tirava dali, principalmente quando a televisão já estava ligada, mas isso não o impedia de ir até lá, engatinhando, levantar-se, aproximar-se da TV e estender o dedinho para botão redondo, mesmo se estivesse ouvindo: “não, Miguel, não; Miguel, não pode; eu disse: não pode”.</p>
<p>E daí, que não podia? E quem disse que era para ele conhecer a palavra não? Se ele queria entender aquele negócio que se iluminava de imagens coloridas e sumia quando apertava o botão, porque iria parar? Era mais legal do que mostrar aos outros que já sabia o significado de não.</p>
<p>Uns dias atrás, aprendera a ficar em pé sem apoio, saindo do chão. Ficava de cócoras, dava impulso e levantava-se. Não era algo muito pensado, e, geralmente, quando percebia que estava ereto apenas sobre os seus próprios pés, desequilibrava-se e sentava-se novamente. Sempre se surpreendia, porque era só se levantar e todos batiam palmas. Ele sorria também, como fazia ao ver outras pessoas rindo, mas, sinceramente, não entendia muito o motivo de tanto aplauso.</p>
<p>Agora estava tentando tirar o papai do que os outros chamavam de celular. Ele gostava de brincar com aquilo e dessa vez estava vendo o seu pai lá dentro. O seu pai era aquela pessoa que jogava ele para cima e, da última vez que estivera com ele, o colocara sobre os ombros, e ele pudera ver tudo lá do alto. Até para ver a mamãe, ele tivera que abaixar a cabeça.</p>
<p>Pois bem. Ele via o papai, ia com seus dedinhos e puxava o rosto dele, mas o papai continuava lá dentro. Balançava o brinquedo, sacudia, batia no chão. E ele continuava lá. Resolveu lamber o papai e esticou a língua: em vez de sentir a pele e o seu gosto, sentiu uma superfície reta e fria, que nem aquela de quando via o outro neném no colo da mamãe, na sua frente, embora soubesse que era a mamãe quem o estava segurando no colo. Era estranho: de uma hora para outra tinha duas mães: uma na frente dele e uma que o segurava. Quando ia pegar o neném da sua frente, colocava a mão numa coisa fria, reta e dura, que não parecia pessoa.</p>
<p>E era exatamente o que estava fazendo – lambendo o brinquedo – quando ele fez um barulho alto e tremeu. Miguel levou um susto e a mãe tirou o celular imediatamente de sua mão, apesar de ele ter feito o seu melhor protesto, de ter chegado a contorcer o corpo e a insinuar um choro. Mas aí, a mãe devolveu o celular para ele: “É a vovó, fala com ela”</p>
<p>Pronto, o mais esquisito de tudo, ouvia a voz dela – daquela pessoa sorridente que tinha um colo gostoso e sempre dizia “cadê minha vovó” quando encontrava com ele ­– mas não tinha vovó nenhuma ali. Olhou para um lado, para o outro, virou o celular ao contrário para ver se ela aparecia lá atrás, que nem o papai. E mesmo assim, nada de vovó.</p>
<p>Começou a chorar, dessa vez, de verdade. E a esfregar seu rosto no peito da mãe e tentar puxar aqueles panos que a cobriam, escondendo o que ele queria. Seu cansaço era quase dor. Precisava de ajuda quando sentia sono; apesar de tudo que já aprendera a fazer sozinho, ainda não sabia o que fazer com aquilo. A mãe entendeu, ajeitou o menino, levantou a blusa e, logo, logo, ele estava se acalmando com aquele leite morninho e doce que era seu por direito.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/67/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=67&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Liliane</title>
		<link>http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/05/14/liliana/</link>
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		<pubDate>Fri, 14 May 2010 14:50:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Tinha sido seu primeiro namorado. Eram muito novos quando começaram. Terminaram, um par de anos depois, meio sem saber porquê; talvez por ainda serem muito novos. Guardaram, contudo, a ternura – e como não dizer? – o amor de um &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/05/14/liliana/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=60&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tinha sido seu primeiro namorado. Eram muito novos quando começaram. Terminaram, um par de anos depois, meio sem saber porquê; talvez por ainda serem muito novos.</p>
<p>Guardaram, contudo, a ternura – e como não dizer? – o amor de um pelo outro ao longo da vida.</p>
<p>Antes de se afastarem, haviam combinado: se aos trinta estivessem sozinhos e sem filho, teriam um filho juntos. Como se fosse simples assim, ter um filho, e como se trinta anos fosse tarde demais.</p>
<p>Por muito tempo manteve a distância: volta e meia tinha notícias dele, apesar de pouco encontrar. Soube que tinha casado, soube que tivera uma filha e um filho. Acompanhou algo da sua carreira de ator. E sempre que lia ou ouvia seu nome sentia um gosto gostoso na boca, sabor de boa lembrança.</p>
<p>Por isso não foi exatamente uma surpresa quando, após encontrá-lo ao acaso e receber o convite pessoal para algumas de suas peças, acabara uma dessas noites com vários chopes e uns tantos beijos.</p>
<p>Era para ter sido apenas aquilo. Uma noite inconsequente, só  para matar a saudade. Tinham passado dos trinta, e se sentiam tão jovens. Mas, não foi. Não era um qualquer, ora bolas, era o <em>Marreco</em>. O Carlos Marreco, seu primeiro amigo, seu primeiro amor.</p>
<p>Nessa segunda vez, a paixão viera aos poucos,  reconstruída a cada encontro esquivo, reencontrada a cada telefonema de meio da tarde, até ser revivida a cada beijo, a cada toque.</p>
<p>Nunca pensara que se relacionaria com um homem casado. Era a amante, a vilã de novelas mexicanas, o pesadelo de suas amigas comprometidas. No entanto, não conseguia se sentir culpada; era o <em>Marreco</em>, afinal&#8230; ela era anterior a tudo aquilo e evitava, acima de tudo, criar embaraço para o amado, mantendo etiqueta rígida de amante discreta: nada de telefonemas, nada de aproximação em finais de semana, e quando precisava ou queria falar alguma coisa mandava um SMS dos mais neutros e secos possíveis, sem assinar, sem carinho que a denunciasse.</p>
<p>E tudo estaria mais ou menos sob controle não fosse seus colegas de trabalho. Trabalhava há quase dez anos na mesma empresa, no mesmo setor, com as mesmas pessoas. Como os outros estivessem em relacionamentos longos (alguns casados, outros em namoros eternos), levando suas vidas sem grandes surpresas e novidades, numa rotina dividida entre jantar e cinema, logo desenvolveram um interesse neurótico pelas histórias de Liliane. Estavam sempre perguntando sobre seus finais de semana, suas azarações, seus romances, suas muitas viagens – a vantagem da solteirice era gastar suas férias e todo o seu dinheiro explorando lugares dos sonhos.</p>
<p>E apesar de quererem saber tudo, de terem um interesse neurótico por cada  detalhe, de darem a ela a impressão de estarem vivendo uma vida nova que não as suas através daquelas histórias, eram pessoas casadoiras, pessoas de família, que, tinham posturas contraditórias: se por um lado ficavam eletrizadas com aquela solteirice assumida, por outro acreditavam que o melhor para Liliane era casar-se, ter filhos e cumprir o destino de uma pessoa na terra.</p>
<p>Por isso, não achara de todo estranho que eles, num determinado momento, deixassem de pensar ou de classificá-la entre as moças solteiras, na hora de apresentar pessoas ou de a contar entre os que solteiros iriam a determinada festa: ela era irrecuperável.</p>
<p>Irrecuperável ou não, perceberam que havia algo diferente, perceberam a chegada de Marreco em seu cotidiano. O problema era que algumas pessoas tinham conhecido o ex no primeiro dos shows. E sabiam que era um homem casado. Então, quando Liliane apareceu de sorriso novo nos lábios, insistiram até descobrir dos encontros: “mas não é aquele seu amigo casado, não, né?”</p>
<p><em>Não&#8230; é outro</em>. Sim, sim, era ele mesmo, o próprio, mas o tom de repreensão da pergunta impediu que pudesse dizer qualquer coisa. A partir daí, não teve sossego. Teve que dividir o amante em dois: o Marreco, ator, ex namorado, e o Carlos, professor, amigo de infância, seu romance atual.</p>
<p>E antes que percebesse, era ela quem estava inventando desculpas, criando histórias, escondendo coisas, atendo o telefone no banheiro, mandando SMS quando não podia falar na frente dos outros, preocupando-se para onde ia, o que fazia e quem estava vendo os dois.</p>
<p>Enquanto ele, com um casamento já sem paixão, com a mulher – mais velha do que ele – preocupada com a própria carreira, apenas avisava: “hoje vou chegar tarde”. E só. Sem mais perguntas, sem mais respostas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/60/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=60&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Clarice</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 18:16:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Chorou, chorou, chorou. Dormiu de pura exaustão. Levantou da cama porque não sobrara mais sono. Chorara em seus sonhos. Escovou os dentes, lágrimas escorreram dos olhos que não pareciam seus, no reflexo do espelho. Fez seu desjejum. Olhou para o &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/03/11/clarice/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=57&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chorou, chorou, chorou. Dormiu de pura exaustão. Levantou da cama porque não sobrara mais sono. Chorara em seus sonhos. Escovou os dentes, lágrimas escorreram dos olhos que não pareciam seus, no reflexo do espelho.</p>
<p>Fez seu desjejum. Olhou para o céu: lindo dia, e chorou. Foi ao banco, pagar certas contas, de óculos escuros.</p>
<p>Sorriu <em>bons dias</em> forçados para colegas de trabalho, porteiros, ascensoristas. Chegou em casa, chorou seu fracasso, chorou a casa vazia, chorou a vida estéril, chorou as oportunidades perdidas.</p>
<p>Pegou um livro na estante. Chorou o Búfalo onde era <em>sempre tão mais fácil amar</em>. Não desmaiou, mas em sua sala, como no texto, era primavera insistente,<em> </em>zoológico e montanha russa.<em></em></p>
<p>Chorou mais um pouco. E mais um pouco.  Chorava porque era primavera para todos, menos para ela. Chorava porque não aprendera a odiar. Chorava para não perder o hábito.</p>
<p>E, aí, de uma hora para outra, sem sequer ter visto os olhos desafiadores do búfalo, parou de chorar.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/57/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=57&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Jean</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 14:46:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro foi o choro incessante do bebê do vizinho. Que acordou o cachorro. O dele, não o do vizinho. Que foi para a sua cama, a dele, não a do cachorro. E começou a lambê-lo sem parar, e a latir &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/02/02/jean/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=51&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro foi o choro incessante do bebê do vizinho. Que acordou o cachorro. O dele, não o do vizinho. Que foi para a sua cama, a dele, não a do cachorro. E começou a lambê-lo sem parar, e a latir entre uma lambida e outra. E o despertar foi inevitável, às cinco e meia da manhã de um sábado.</p>
<p>Belo início de fim de semana. O seu e o do vizinho, não o do cachorro, que não percebia a ironia da frase, nem sabia o que era dia da semana. Só abanar serelepe o próprio rabo.</p>
<p>Levantou-se para beber água, ele e não o cachorro, que o seguiu, latindo e pulando em círculos à sua volta, daquele jeito que ele jurava que se não fizesse algo a tempo, ou o cão desistia do dono, ou aprendia a falar.</p>
<p>Entregou os pontos, ele e não o cachorro, entendeu a conversa, pegou a coleira e saiu para um passeio mais que diurno na beira da lagoa. <em>Alvorada lá no morro, que beleza. Ninguém chora não há tristeza, ninguém sente em dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo, e a natureza sorrindo, tingindo, tingindo</em><em>. </em></p>
<p>Ruas desertas, logo perceberam, os dois, ele e o cachorro. Era um sábado, afinal. O cão o puxava pela coleira. Não andava, sonambulava. Ele. O cachorro ia despertíssimo, farejando o chão animadamente.</p>
<p>Volta e meia, um ou outro bêbado saía de um prédio, rindo alto. Com roupa de noite (a dos bêbados, não a dele), e cara de véspera. A dele também, não a do cachorro.</p>
<p>De volta para a casa, a dele, perdera o sono. Sem nada para fazer, ligou o computador. Ele e não o cachorro. Disse que leu notícias online, respondeu emails pendentes, comprou um livro que lhe pareceu interessante, leu mais notícias, viu três ou quatro vídeos no youtube, entrou no Facebook, resolveu experimentar a Farmville, respondeu alguns quiz e descobriu qual banda, qual filme, qual ator de Hollywood, qual romance perdido, qual casal famoso, qual diretor de cinema, qual música dos Beatles, qual raça de cão que era.</p>
<p>Que, embora adiasse, sabia bem o que era importante, para seu trabalho e não o para o do cachorro;  mas não tinha disposição para encarar, às sete da manhã, aquele processo que trouxera do escritório e que seria a sua tarefa, não a do cachorro, antes de o domingo terminar.</p>
<p>E que,  quando o sol entrou mais forte na sua sala, voltou para a cama. Conseguiu dormir mais um pouco, para fugir ao processo, ele. O cachorro, ao pé da cama, já roncava há tempos.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/51/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=51&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Johannes</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 01:06:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Andava atormentado. Parecia até feitiçaria. De uns tempos para cá, fora acometido por grande angústia, como se de repente descobrisse que morreria um dia ou outro. Sempre soube que pereceria, é claro, embora nunca tivesse dado importância real para o &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/02/02/johannes/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=45&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Andava atormentado. Parecia até feitiçaria. De uns tempos para cá, fora acometido por grande angústia, como se de repente descobrisse que morreria um dia ou outro. Sempre soube que pereceria, é claro, embora nunca tivesse dado importância real para o assunto.</p>
<p>Agora não. De uma hora para outra, sem que nada de especial houvesse acontecido, passou a imaginar que poderia morrer amanhã. E se isso acontecesse, tanta coisa deixaria por fazer: não teria seu filho, não plantaria a árvore, não leria os clássicos, não iria aos lugares que gostaria de conhecer, não faria aquela viagem tantas vezes adiada, não teria se aproximado da irmã, não terminaria seu projeto, não daria o grande passo na empresa, não reformaria o apartamento, não relançaria seu livro em edição revista e ampliada.</p>
<p>A sensação piorava progressivamente. Não bastasse os calafrios que o tomavam de assalto nas horas mais bizarras do dia, dera para ter pesadelos apocalípticos. Bestas, fogo ardente, castigos vários, chicotes, raios, descargas elétricas, choques&#8230; logo ele que nunca fora muito católico. Nem sabia, ao certo, se acreditava.</p>
<p>Nesse sábado, acordou suando frio. Depois de tentar mergulhar em onda gigante (ou correr dela, em direção à Delfim Moreira?, não lembrava direito), afogou-se e viu seu próprio enterro. Ninguém chorara por ele. Nem mesmo a irmã.</p>
<p>Levantou-se num rompante, sobressaltado. Ainda sentia o gosto do sal marinho na sua boca. Foi ao banheiro, jogou uma água no rosto. Inspirou profundamente por três vezes, de olhos fechados. Suspirou. Espreguiçou-se e foi para a sala.</p>
<p>Tinha que fazer alguma coisa. Pensou na irmã. Há quanto tempo não se falavam. E nada havia acontecido, nada que explicasse como podiam ter virado dois estranhos. Eram tão amigos na infância. Sem que percebessem cada um seguira seu rumo, instalara-se em uma cidade, criara sua própria vida.</p>
<p>Precisava agir. E seria agora. Eram seis da manhã.  Muito cedo para telefonar. Talvez ela se assustasse, talvez nem ouvisse os toques. Sentou-se à frente do computador e escreveu uma longa mensagem, perguntando por ela, dizendo o que andava fazendo, propondo um encontro. Tinha alguns dias de férias vencidas.</p>
<p>Não suava mais. O coração acelerado voltara ao seu ritmo. Sentiu-se bem, como há muito não se sentia. Deu um bocejo. Seu corpo relaxou. Percebeu que podia voltar à cama e dormir mais algumas horas.</p>
<p>E foi só por isso que não viu quando a mensagem foi devolvida pelo servidor com um aviso de conta inexistente.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/45/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=45&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Juan</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 02:16:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Era a quinta ou sexta vez que saía com ela. E, como acontecera antes, só agora lembrava por que após o último encontro tinha prometido a si mesmo que não ligaria novamente; promessa, como bem se vê, sucessivamente rompida. A &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/01/31/juan/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=41&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era a quinta ou sexta vez que saía com ela. E, como acontecera antes, só agora lembrava por que após o último encontro tinha prometido a si mesmo que não ligaria novamente; promessa, como bem se vê, sucessivamente rompida.</p>
<p>A moça era solteira, tinha 35 anos, morava sozinha, não devia satisfação a ninguém, mas tinha essa cisma: precisava começar o dia em sua casa. Não importava o que fizesse, tinha que amanhecer na própria cama. Por isso, nunca viajava, dizia.</p>
<p>Então, eles saíam, para jantar ou um tiragosto num barzinho agradável, quem sabe um cinema (até ao teatro já tinham ido), a noite animava, os dois se aninhavam e tomavam o rumo do seu apartamento. Não o dela, que era pequeno&#8230;</p>
<p>Beijavam-se, tocavam-se, experimentavam-se, sentiam-se e antes de perceberem, se abraçavam e dormiam, corpo colado no outro.</p>
<p>Até às 5h, quando, parecendo um despertador de tão pontual, a moça o acordava. Tinha que ir.</p>
<p>Não conseguia entender por que ela não podia simplesmente se levantar, se vestir, deixar um bilhete, bater a porta e pegar um taxi no ponto embaixo de seu prédio, como tantas outras fizeram e ainda fariam. Não. Ela tinha que acordá-lo para se despedir.</p>
<p>Na primeira noite, ela ameaçou pegar um taxi, e fosse por ser o primeiro encontro, fosse por ele já ter despertado, cometera o erro de se oferecer para a levar em casa.</p>
<p>E ela, que era mulher independente, mas não dispensava mimo, entendeu que eram gentileza e preocupação genuínas e, quando chegava cinco da manhã, entre beijos, o chamava: me leva para casa, está na hora de ir.</p>
<p>Mesmo ritual que se repetia agora. Porque era educado, segurou o palavrão que quase saía pela boca, vestiu sua calça pegou a chave do carro e cumpriu seu dever. Ela precisava, não era?</p>
<p>Mas, dessa vez, dessa vez, não cairia de novo. Tão logo chegou em casa, pegou seu IPhone, abriu seus contatos, e, embaixo do telefone da moça escreveu a observação: é aquela que me acorda.</p>
<p>Deitou-se na cama, revigorado, e voltou a dormir um sono tranquilo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/41/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=41&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>João</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 01:28:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Tinha bebido todas. Não se lembrava como chegara em casa. Muito menos como fora parar na cama, só de cueca e meias. Por que não tirou as meias? Há muito não ficava tão bêbado. A causa, contudo, era nobilíssima: o &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2010/01/30/joao/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=37&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tinha bebido todas. Não se lembrava como chegara em casa. Muito menos como fora parar na cama, só de cueca e meias. Por que não tirou as meias?</p>
<p>Há muito não ficava tão bêbado. A causa, contudo, era nobilíssima: o América fora campeão da segunda divisão e finalmente voltaria à elite do futebol carioca.</p>
<p>Estava no melhor do sono – naquela hora em que as mais belas musas, os mais belos gols e as mais geladas cervejas passeavam pela sua mente em repouso – quando um desequilíbrio no fornecimento de energia elétrica, que quase resultou em outro apagão, fez, após a breve piscada de luz,  a corrente voltar mais forte, queimando o arcondicionado.</p>
<p>Mas isso, claro, ele só soube depois. Depois de acordar empapado de suor, às seis da manhã, lençóis encharcados. Maldisse o arcondicionado, como se pessoa fosse, como se o aparelho tivesse responsabilidade sobre os próprios atos, como se agisse intencionalmente só para estragar a comemoração merecida.</p>
<p>Sem conseguir dormir – quem consegue dormir no verão escaldante do Rio de Janeiro? –, sem ânimo ou concentração para voltar àquele livro que o esperava há dias na cabeceira de sua cama, resolveu ver se tinha deixado o computador ligado, para saber, logo de uma vez, o tamanho do prejuízo.</p>
<p>Menos mal, aparentemente nenhum dano. E já que estava online, resolveu baixar os emails. Submarino direto, Lojas Americanas, os mais criativos vírus (fotos picantes, confirmação de compras no seu cartão de crédito, intimação judicial para depor&#8230;), emagreça hoje, informativo ticketronics, blá, blá, blá, até que encontrou uma resposta bem humorada a um email que tinha enviado dias atrás. Muito bem, esse merecia nova resposta&#8230; para exercer sua verve, para manter o contato, para melhor o seu ânimo, ele mesmo não sabia por quê.</p>
<p>De resto, nada muito interessante e já estava sucumbindo ao tédio, quando lembrou do ventilador do quarto de empregada. Estava um tanto alquebrado, mas qualquer coisa, nem que fosse aquele velho leque que uma tia avó usava quando viva (que fim teria levado?) era melhor do que nada.</p>
<p>Fosse o leve frescor, fosse o ratatá do giro das pás do ventilador, fosse a ressaca, fosse o cansaço, fato é que em poucos minutos voltou às musas, aos gols, às geladas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/37/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=37&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Bárbara</title>
		<link>http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2009/07/14/barbara/</link>
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		<pubDate>Tue, 14 Jul 2009 00:40:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Melo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de alguns anos de vida sem sustos, algo acontecia. Bárbara sentia-se só na maior parte do tempo, pois era difícil falar sobre isso com quem quer que fosse, era difícil explicar, era difícil para ela entender, e não acreditava &#8230; <a href="http://pilulasdeficcao.wordpress.com/2009/07/14/barbara/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=30&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de alguns anos de vida sem sustos, algo acontecia. Bárbara sentia-se só na maior parte do tempo, pois era difícil falar sobre isso com quem quer que fosse, era difícil explicar, era difícil para ela entender, e não acreditava que alguém pudesse de fato ajudar. O mais provável era acharem-na louca, em crise, em depressão&#8230; com algum desequilíbrio.</p>
<p>Quando as pessoas rompem a lógica, escapam da segurança das definições racionais, da materialidade das coisas tangíveis, geralmente são ditas perturbadas.</p>
<p>Sem dúvida estava perturbada. Ela não compreendia, mas aprendera com um poeta que há coisas que não podem ser expressas, há coisas que não podem ser traduzíveis em palavras. Há coisas ilógicas e isso é tudo.</p>
<p>Sua perturbação vinha da instabilidade que, de uma hora para outra, instalara-se em sua casa. Era como se em alguns dias ela amasse o marido e em outros dias não, sem que nada tivesse ocorrido, sem nada que justificasse a mudança. Não era como se ela tivesse ficado chateada com algo, ou cansada, ou com problemas no trabalho, ou irritada com a situação política econômica social religiosa sei-lá-mais-quê, e se fechasse. Não. Era como se ele fosse duas pessoas distintas. Uma que ela amava e um outro, uma pessoa estranha, que ela não amava.</p>
<p>Se trocavam beijos, eram beijos frios. Se ela o acarinhava, era toque sem vida. Se dizia algo, era com esforço. Se sorria, era forçado. Se tinha algum movimento em direção a ele, era para “guardar” o lugar para outro dia. Momentos nos quais o olhava sem o ver.</p>
<p>Depois, no dia seguinte, ou mais tardar no próximo, estava ali de novo, como fora antes. Sem aquela linha imaginária, sem aquela necessidade de representar.</p>
<p>No início, Bárbara achou que era passageiro, mas a situação prosseguiu, com ausências reiteradas, físicas ou não.</p>
<p>Nos dias em que o amava, não podia imaginar sua vida sem ele e sofria em pensar que podia perdê-lo. Nos outros, achava difícil esbarrar com ele pela casa.</p>
<p>Resolveu que aproveitaria dos dias amorosos e se retrairia nos outros. Encheria seu tempo com coisas várias, dedicar-se-ia a atividades diversas, veria televisão, leria, andaria na beira do mar. Fingiria não sentir aquele cheiro de cadáver na sala.</p>
<p>Contudo, a situação prosseguiu e  a sua alternância emocional ganhou ritmo próprio. Dia sim, o amava; no seguinte, não. Por meses manteve essa situação, sem conseguir entender ou desabafar. Era como se estivesse despetalando um girassol: bem-me-quer, mal-me-quer.</p>
<p>Em dias úteis, era mais fácil levar, manter-se sã. Com o trabalho e os afazeres da casa, a convivência era pouca. A semana, entretanto, também tinha sábados e domingos.</p>
<p>O passar do tempo acentuou a solidão, o estranhamento, a sensação de desequilíbrio. A quase loucura.</p>
<p>Começou a sofrer nos dias de amor: crispava-se, antecipando o malquerer do dia seguinte. E, nos dias de desamor isolava-se, sabendo que ao amanhecer tudo mudaria.</p>
<p>Não conseguia mais agir naturalmente. Não conseguia expressar o que sentia, não conseguia buscar o ombro de alguém. Começou a pensar que, talvez, o melhor para ela seria procurar outros mares. <em>Mas, se ainda tinham os dias de amor&#8230; os dias em que eles se amavam. <span style="font-style:normal;">Dias em que ela queria o ter para sempre. </span></em>E por causa desses dias, não conseguia virar a página.</p>
<p>Outras vezes, desejava ter uma aventura, se distanciar. Sumir, para pensar com clareza. Aprendera com sua avó, contudo, que fugir nunca trouxera solução para nada nem ninguém.</p>
<p>Não, definitivamente, fugir não era saída. Todavia, as semanas passavam, sua confusão aumentava, aumentava também a dor, o isolamento e a percepção de que não contava com ninguém, a não ser consigo própria.</p>
<p>Um dia, saiu de casa de manhã, para ir para o trabalho. Ligou o motor do carro, dirigiu-se para o caminho de sempre. Havia mais trânsito do que o habitual. Bárbara procurou um desvio, para escapar do engarrafamento. E, aí,  em vez de virar à direita, virou à esquerda. Foi acompanhando a orla até perder-se de vista. Levava consigo apenas a bolsa, carteira, batom, lenço de papel, celular e documentos. Depois de muito dirigir, estacionou o carro. Sem pensar, pegou um ônibus, entrou num trem, noutro ônibus e assim foi andando, sem destino certo.</p>
<p> </p>
<p>Foram necessárias 72 horas para a polícia considerar oficialmente Bárbara como desaparecida. Nos jornais, especulava-se seqüestro. Mas, Bárbara não quis comprar os jornais.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pilulasdeficcao.wordpress.com/30/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pilulasdeficcao.wordpress.com&amp;blog=8461849&amp;post=30&amp;subd=pilulasdeficcao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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