Ana Clara

Ana era experiente, marcada, desiludida. Tinha vivido, se entregado e perdido. Chorado, tentado, feito concessões, chegado ao seu limite, esquecido.

Clara era jovem, apaixonada, sonhadora. Mesmo quando não tinha ninguém específico em vista. Acreditava no futuro e no amor. Via beleza na vida. Sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria o homem com quem partilhar sua história, suas emoções, suas dúvidas, suas questões, seus pequenos sucessos, seus fracassos.

Ana protegera-se. Acreditava que amor seria sempre ilusório. Uma invenção cultural. Uma utopia só possível de existir se as duas pessoas estivessem muito determinadas a acreditarem nela. A monogamia  não seria natural, mas culturalmente determinada… No entanto, seríamos seres culturais, estando fadados a sofrer com desejos duplicados, traições, insatisfações. Com o tempo o desejo sempre diminuiria, a rotina se instalaria, as responsabilidades partilhadas afastariam o casal e a felicidade escorreria. Ana teorizava ao invés de sentir.

Para Ana, Clara era ingênua. Sorria para ela, pensando, em seu íntimo, que um dia Clara superaria essa fase. A juventude era sempre adorável, cheia de projetos, esperanças. A juventude acreditava no potencial transformador dos indivíduos sobre a humanidade. Mas isso passava.

Clara queria a paixão.  Queria romance e não namoro. Queria sentir-se desejada. Queria flores, mimos, chocolates, voz derretida ao telefone, sexo gostoso, palavras doces, emails fofos. Queria ser lembrada nas pequenas coisas e momentos do dia, ser o primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir. Queria que, a cada vez que o outro experimentasse uma comida gostosa, visse um filme bom, tivesse uma boa notícia, quisesse dividir com ela. Clara queria estar nos detalhes. Mas, queria, também, partilhar a vida, dividir as grandes e pequenas coisas cotidianas, consolar e ser consolada quando estivesse triste, abraçar quando viesse o choro. Dizer “tudo vai dar certo” para preocupações e momentos difíceis.

Ana achava que essas coisas só existiam nos primeiros três ou quatro meses de uma relação. A opção por uma relação longa inviabilizava a paixão. Para ter essas coisas, seria preciso estar sempre começando. Então, ouvia Clara e balançava a cabeça. O que ela queria era inconciliável com coisas como filhos, família, vida de gente grande.

Ana poupava Clara, não contava o que realmente pensava, pois, no fundo, respeitava aquele vigor, era tocada pela juventude da outra. Ela apenas dizia, “vocês, jovens”. E Clara ria. Sabia não encontrar eco em Ana, dava de ombros e respondia: “duvido que você também não queira isso”.

Era esse o único assunto em que discordavam. Em todo o resto sintonizavam: política, religião, futebol.

O problema – o principal problema – é que Ana e Clara habitavam uma mesma e única mulher.

Publicado em Uncategorized por Luísa Melo. Marque Link Permanente.

Sobre Luísa Melo

Carioca, tricolor, balzaquiana (até o momento). Cometi alguma ficção na faculdade e arredores. Depois, fui contadora de histórias, atriz, jornalista, mestranda, doutoranda, coordenadora pedagógica de projetos especiais, produtora de conteúdo de internet, pesquisadora, professora. Um amigo querido deixou escrito num livro, em dedicatória, poucos meses antes de morrer: "Há tantas Luísas e tão pouco tempo..."

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