Miguel

Já estava com mais autonomia. Fora difícil, mas aprendera a sentar sem ajuda. De início, tentava se levantar puxando a cabeça e o corpo para frente; mas, talvez de tanto observar, talvez por mero acaso, talvez,  quem sabe, por ter pensado uma estratégia, descobriu que bastava se virar de bruços, encolher as pernas como se engatinhar fosse, dar um pequeno impulso e pronto: estava sentado. Uma vez descoberto o mecanismo, ficara fácil. Sempre que alguém o colocava deitado, em instantes sentava. Agora era ele quem decidia, e, sentado, podia ver o mundo de frente.

Descobrira também, pouco depois, que, quando se apoiava em suas mãos e seus joelhos, locomovia-se mais rapidamente do que arrastando a barriga pelo chão.  E com um pouco de treino, adquirira agilidade. Teve até aquela vez na qual a mãe bobeara, esquecera a porta do banheiro aberta quando saíra do quarto para pegar a chupeta na sala e ao voltar, não encontrara ninguém por perto.

Ela chamara o nome dele, algumas vezes, mas ele fingira não ouvir, porque estava mais interessado em explorar o território novo, aquele lugar que sempre tinha a porta fechada na sua cara, quando estava prestes a entrar. Dessa vez, não. Quando a mãe o encontrara, ele já estava com a mão molhando-se naquele vaso branco e grande. E não entendera porque a mãe ficara brava, tirara a mão dele de lá e colocara uma e outra debaixo de mais água, que saía de um tubo prateado, enquanto ele tentava mexer naquela coisa redonda e brilhante ao lado do tubo.

Mas o que ele queria mesmo, era ficar em pé como todo mundo. Estava sempre procurando apoio para se levantar: o sofá, a cama do irmão, a grade do berço, a estante – que, aliás, proporcionava a satisfação extra de ligar e desligar a televisão. Sempre tinha alguém que gritava com ele, e o tirava dali, principalmente quando a televisão já estava ligada, mas isso não o impedia de ir até lá, engatinhando, levantar-se, aproximar-se da TV e estender o dedinho para botão redondo, mesmo se estivesse ouvindo: “não, Miguel, não; Miguel, não pode; eu disse: não pode”.

E daí, que não podia? E quem disse que era para ele conhecer a palavra não? Se ele queria entender aquele negócio que se iluminava de imagens coloridas e sumia quando apertava o botão, porque iria parar? Era mais legal do que mostrar aos outros que já sabia o significado de não.

Uns dias atrás, aprendera a ficar em pé sem apoio, saindo do chão. Ficava de cócoras, dava impulso e levantava-se. Não era algo muito pensado, e, geralmente, quando percebia que estava ereto apenas sobre os seus próprios pés, desequilibrava-se e sentava-se novamente. Sempre se surpreendia, porque era só se levantar e todos batiam palmas. Ele sorria também, como fazia ao ver outras pessoas rindo, mas, sinceramente, não entendia muito o motivo de tanto aplauso.

Agora estava tentando tirar o papai do que os outros chamavam de celular. Ele gostava de brincar com aquilo e dessa vez estava vendo o seu pai lá dentro. O seu pai era aquela pessoa que jogava ele para cima e, da última vez que estivera com ele, o colocara sobre os ombros, e ele pudera ver tudo lá do alto. Até para ver a mamãe, ele tivera que abaixar a cabeça.

Pois bem. Ele via o papai, ia com seus dedinhos e puxava o rosto dele, mas o papai continuava lá dentro. Balançava o brinquedo, sacudia, batia no chão. E ele continuava lá. Resolveu lamber o papai e esticou a língua: em vez de sentir a pele e o seu gosto, sentiu uma superfície reta e fria, que nem aquela de quando via o outro neném no colo da mamãe, na sua frente, embora soubesse que era a mamãe quem o estava segurando no colo. Era estranho: de uma hora para outra tinha duas mães: uma na frente dele e uma que o segurava. Quando ia pegar o neném da sua frente, colocava a mão numa coisa fria, reta e dura, que não parecia pessoa.

E era exatamente o que estava fazendo – lambendo o brinquedo – quando ele fez um barulho alto e tremeu. Miguel levou um susto e a mãe tirou o celular imediatamente de sua mão, apesar de ele ter feito o seu melhor protesto, de ter chegado a contorcer o corpo e a insinuar um choro. Mas aí, a mãe devolveu o celular para ele: “É a vovó, fala com ela”

Pronto, o mais esquisito de tudo, ouvia a voz dela – daquela pessoa sorridente que tinha um colo gostoso e sempre dizia “cadê minha vovó” quando encontrava com ele ­– mas não tinha vovó nenhuma ali. Olhou para um lado, para o outro, virou o celular ao contrário para ver se ela aparecia lá atrás, que nem o papai. E mesmo assim, nada de vovó.

Começou a chorar, dessa vez, de verdade. E a esfregar seu rosto no peito da mãe e tentar puxar aqueles panos que a cobriam, escondendo o que ele queria. Seu cansaço era quase dor. Precisava de ajuda quando sentia sono; apesar de tudo que já aprendera a fazer sozinho, ainda não sabia o que fazer com aquilo. A mãe entendeu, ajeitou o menino, levantou a blusa e, logo, logo, ele estava se acalmando com aquele leite morninho e doce que era seu por direito.

Publicado em Uncategorized por Luísa Melo. Marque Link Permanente.

Sobre Luísa Melo

Carioca, tricolor, balzaquiana (até o momento). Cometi alguma ficção na faculdade e arredores. Depois, fui contadora de histórias, atriz, jornalista, mestranda, doutoranda, coordenadora pedagógica de projetos especiais, produtora de conteúdo de internet, pesquisadora, professora. Um amigo querido deixou escrito num livro, em dedicatória, poucos meses antes de morrer: "Há tantas Luísas e tão pouco tempo..."

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