Tinha sido seu primeiro namorado. Eram muito novos quando começaram. Terminaram, um par de anos depois, meio sem saber porquê; talvez por ainda serem muito novos.
Guardaram, contudo, a ternura – e como não dizer? – o amor de um pelo outro ao longo da vida.
Antes de se afastarem, haviam combinado: se aos trinta estivessem sozinhos e sem filho, teriam um filho juntos. Como se fosse simples assim, ter um filho, e como se trinta anos fosse tarde demais.
Por muito tempo manteve a distância: volta e meia tinha notícias dele, apesar de pouco encontrar. Soube que tinha casado, soube que tivera uma filha e um filho. Acompanhou algo da sua carreira de ator. E sempre que lia ou ouvia seu nome sentia um gosto gostoso na boca, sabor de boa lembrança.
Por isso não foi exatamente uma surpresa quando, após encontrá-lo ao acaso e receber o convite pessoal para algumas de suas peças, acabara uma dessas noites com vários chopes e uns tantos beijos.
Era para ter sido apenas aquilo. Uma noite inconsequente, só para matar a saudade. Tinham passado dos trinta, e se sentiam tão jovens. Mas, não foi. Não era um qualquer, ora bolas, era o Marreco. O Carlos Marreco, seu primeiro amigo, seu primeiro amor.
Nessa segunda vez, a paixão viera aos poucos, reconstruída a cada encontro esquivo, reencontrada a cada telefonema de meio da tarde, até ser revivida a cada beijo, a cada toque.
Nunca pensara que se relacionaria com um homem casado. Era a amante, a vilã de novelas mexicanas, o pesadelo de suas amigas comprometidas. No entanto, não conseguia se sentir culpada; era o Marreco, afinal… ela era anterior a tudo aquilo e evitava, acima de tudo, criar embaraço para o amado, mantendo etiqueta rígida de amante discreta: nada de telefonemas, nada de aproximação em finais de semana, e quando precisava ou queria falar alguma coisa mandava um SMS dos mais neutros e secos possíveis, sem assinar, sem carinho que a denunciasse.
E tudo estaria mais ou menos sob controle não fosse seus colegas de trabalho. Trabalhava há quase dez anos na mesma empresa, no mesmo setor, com as mesmas pessoas. Como os outros estivessem em relacionamentos longos (alguns casados, outros em namoros eternos), levando suas vidas sem grandes surpresas e novidades, numa rotina dividida entre jantar e cinema, logo desenvolveram um interesse neurótico pelas histórias de Liliane. Estavam sempre perguntando sobre seus finais de semana, suas azarações, seus romances, suas muitas viagens – a vantagem da solteirice era gastar suas férias e todo o seu dinheiro explorando lugares dos sonhos.
E apesar de quererem saber tudo, de terem um interesse neurótico por cada detalhe, de darem a ela a impressão de estarem vivendo uma vida nova que não as suas através daquelas histórias, eram pessoas casadoiras, pessoas de família, que, tinham posturas contraditórias: se por um lado ficavam eletrizadas com aquela solteirice assumida, por outro acreditavam que o melhor para Liliane era casar-se, ter filhos e cumprir o destino de uma pessoa na terra.
Por isso, não achara de todo estranho que eles, num determinado momento, deixassem de pensar ou de classificá-la entre as moças solteiras, na hora de apresentar pessoas ou de a contar entre os que solteiros iriam a determinada festa: ela era irrecuperável.
Irrecuperável ou não, perceberam que havia algo diferente, perceberam a chegada de Marreco em seu cotidiano. O problema era que algumas pessoas tinham conhecido o ex no primeiro dos shows. E sabiam que era um homem casado. Então, quando Liliane apareceu de sorriso novo nos lábios, insistiram até descobrir dos encontros: “mas não é aquele seu amigo casado, não, né?”
Não… é outro. Sim, sim, era ele mesmo, o próprio, mas o tom de repreensão da pergunta impediu que pudesse dizer qualquer coisa. A partir daí, não teve sossego. Teve que dividir o amante em dois: o Marreco, ator, ex namorado, e o Carlos, professor, amigo de infância, seu romance atual.
E antes que percebesse, era ela quem estava inventando desculpas, criando histórias, escondendo coisas, atendo o telefone no banheiro, mandando SMS quando não podia falar na frente dos outros, preocupando-se para onde ia, o que fazia e quem estava vendo os dois.
Enquanto ele, com um casamento já sem paixão, com a mulher – mais velha do que ele – preocupada com a própria carreira, apenas avisava: “hoje vou chegar tarde”. E só. Sem mais perguntas, sem mais respostas.
Adoro seus textos…
não demora para colocar outro, ta?
Bjussss
Fiz uns cálculos: ele ficou com duas mulheres e ela ficou metade do homem. metade por metade, ainda prefiro um veadinho inteiro.