Clarice

Chorou, chorou, chorou. Dormiu de pura exaustão. Levantou da cama porque não sobrara mais sono. Chorara em seus sonhos. Escovou os dentes, lágrimas escorreram dos olhos que não pareciam seus, no reflexo do espelho.

Fez seu desjejum. Olhou para o céu: lindo dia, e chorou. Foi ao banco, pagar certas contas, de óculos escuros.

Sorriu bons dias forçados para colegas de trabalho, porteiros, ascensoristas. Chegou em casa, chorou seu fracasso, chorou a casa vazia, chorou a vida estéril, chorou as oportunidades perdidas.

Pegou um livro na estante. Chorou o Búfalo onde era sempre tão mais fácil amar. Não desmaiou, mas em sua sala, como no texto, era primavera insistente, zoológico e montanha russa.

Chorou mais um pouco. E mais um pouco.  Chorava porque era primavera para todos, menos para ela. Chorava porque não aprendera a odiar. Chorava para não perder o hábito.

E, aí, de uma hora para outra, sem sequer ter visto os olhos desafiadores do búfalo, parou de chorar.

Publicado em Uncategorized por Luísa Melo. Marque Link Permanente.

Sobre Luísa Melo

Carioca, tricolor, balzaquiana (até o momento). Cometi alguma ficção na faculdade e arredores. Depois, fui contadora de histórias, atriz, jornalista, mestranda, doutoranda, coordenadora pedagógica de projetos especiais, produtora de conteúdo de internet, pesquisadora, professora. Um amigo querido deixou escrito num livro, em dedicatória, poucos meses antes de morrer: "Há tantas Luísas e tão pouco tempo..."

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