Jean

Primeiro foi o choro incessante do bebê do vizinho. Que acordou o cachorro. O dele, não o do vizinho. Que foi para a sua cama, a dele, não a do cachorro. E começou a lambê-lo sem parar, e a latir entre uma lambida e outra. E o despertar foi inevitável, às cinco e meia da manhã de um sábado.

Belo início de fim de semana. O seu e o do vizinho, não o do cachorro, que não percebia a ironia da frase, nem sabia o que era dia da semana. Só abanar serelepe o próprio rabo.

Levantou-se para beber água, ele e não o cachorro, que o seguiu, latindo e pulando em círculos à sua volta, daquele jeito que ele jurava que se não fizesse algo a tempo, ou o cão desistia do dono, ou aprendia a falar.

Entregou os pontos, ele e não o cachorro, entendeu a conversa, pegou a coleira e saiu para um passeio mais que diurno na beira da lagoa. Alvorada lá no morro, que beleza. Ninguém chora não há tristeza, ninguém sente em dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo, e a natureza sorrindo, tingindo, tingindo.

Ruas desertas, logo perceberam, os dois, ele e o cachorro. Era um sábado, afinal. O cão o puxava pela coleira. Não andava, sonambulava. Ele. O cachorro ia despertíssimo, farejando o chão animadamente.

Volta e meia, um ou outro bêbado saía de um prédio, rindo alto. Com roupa de noite (a dos bêbados, não a dele), e cara de véspera. A dele também, não a do cachorro.

De volta para a casa, a dele, perdera o sono. Sem nada para fazer, ligou o computador. Ele e não o cachorro. Disse que leu notícias online, respondeu emails pendentes, comprou um livro que lhe pareceu interessante, leu mais notícias, viu três ou quatro vídeos no youtube, entrou no Facebook, resolveu experimentar a Farmville, respondeu alguns quiz e descobriu qual banda, qual filme, qual ator de Hollywood, qual romance perdido, qual casal famoso, qual diretor de cinema, qual música dos Beatles, qual raça de cão que era.

Que, embora adiasse, sabia bem o que era importante, para seu trabalho e não o para o do cachorro;  mas não tinha disposição para encarar, às sete da manhã, aquele processo que trouxera do escritório e que seria a sua tarefa, não a do cachorro, antes de o domingo terminar.

E que,  quando o sol entrou mais forte na sua sala, voltou para a cama. Conseguiu dormir mais um pouco, para fugir ao processo, ele. O cachorro, ao pé da cama, já roncava há tempos.

Publicado em Uncategorized por Luísa Melo. Marque Link Permanente.

Sobre Luísa Melo

Carioca, tricolor, balzaquiana (até o momento). Cometi alguma ficção na faculdade e arredores. Depois, fui contadora de histórias, atriz, jornalista, mestranda, doutoranda, coordenadora pedagógica de projetos especiais, produtora de conteúdo de internet, pesquisadora, professora. Um amigo querido deixou escrito num livro, em dedicatória, poucos meses antes de morrer: "Há tantas Luísas e tão pouco tempo..."

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