Depois de alguns anos de vida sem sustos, algo acontecia. Bárbara sentia-se só na maior parte do tempo, pois era difícil falar sobre isso com quem quer que fosse, era difícil explicar, era difícil para ela entender, e não acreditava que alguém pudesse de fato ajudar. O mais provável era acharem-na louca, em crise, em depressão… com algum desequilíbrio.
Quando as pessoas rompem a lógica, escapam da segurança das definições racionais, da materialidade das coisas tangíveis, geralmente são ditas perturbadas.
Sem dúvida estava perturbada. Ela não compreendia, mas aprendera com um poeta que há coisas que não podem ser expressas, há coisas que não podem ser traduzíveis em palavras. Há coisas ilógicas e isso é tudo.
Sua perturbação vinha da instabilidade que, de uma hora para outra, instalara-se em sua casa. Era como se em alguns dias ela amasse o marido e em outros dias não, sem que nada tivesse ocorrido, sem nada que justificasse a mudança. Não era como se ela tivesse ficado chateada com algo, ou cansada, ou com problemas no trabalho, ou irritada com a situação política econômica social religiosa sei-lá-mais-quê, e se fechasse. Não. Era como se ele fosse duas pessoas distintas. Uma que ela amava e um outro, uma pessoa estranha, que ela não amava.
Se trocavam beijos, eram beijos frios. Se ela o acarinhava, era toque sem vida. Se dizia algo, era com esforço. Se sorria, era forçado. Se tinha algum movimento em direção a ele, era para “guardar” o lugar para outro dia. Momentos nos quais o olhava sem o ver.
Depois, no dia seguinte, ou mais tardar no próximo, estava ali de novo, como fora antes. Sem aquela linha imaginária, sem aquela necessidade de representar.
No início, Bárbara achou que era passageiro, mas a situação prosseguiu, com ausências reiteradas, físicas ou não.
Nos dias em que o amava, não podia imaginar sua vida sem ele e sofria em pensar que podia perdê-lo. Nos outros, achava difícil esbarrar com ele pela casa.
Resolveu que aproveitaria dos dias amorosos e se retrairia nos outros. Encheria seu tempo com coisas várias, dedicar-se-ia a atividades diversas, veria televisão, leria, andaria na beira do mar. Fingiria não sentir aquele cheiro de cadáver na sala.
Contudo, a situação prosseguiu e a sua alternância emocional ganhou ritmo próprio. Dia sim, o amava; no seguinte, não. Por meses manteve essa situação, sem conseguir entender ou desabafar. Era como se estivesse despetalando um girassol: bem-me-quer, mal-me-quer.
Em dias úteis, era mais fácil levar, manter-se sã. Com o trabalho e os afazeres da casa, a convivência era pouca. A semana, entretanto, também tinha sábados e domingos.
O passar do tempo acentuou a solidão, o estranhamento, a sensação de desequilíbrio. A quase loucura.
Começou a sofrer nos dias de amor: crispava-se, antecipando o malquerer do dia seguinte. E, nos dias de desamor isolava-se, sabendo que ao amanhecer tudo mudaria.
Não conseguia mais agir naturalmente. Não conseguia expressar o que sentia, não conseguia buscar o ombro de alguém. Começou a pensar que, talvez, o melhor para ela seria procurar outros mares. Mas, se ainda tinham os dias de amor… os dias em que eles se amavam. Dias em que ela queria o ter para sempre. E por causa desses dias, não conseguia virar a página.
Outras vezes, desejava ter uma aventura, se distanciar. Sumir, para pensar com clareza. Aprendera com sua avó, contudo, que fugir nunca trouxera solução para nada nem ninguém.
Não, definitivamente, fugir não era saída. Todavia, as semanas passavam, sua confusão aumentava, aumentava também a dor, o isolamento e a percepção de que não contava com ninguém, a não ser consigo própria.
Um dia, saiu de casa de manhã, para ir para o trabalho. Ligou o motor do carro, dirigiu-se para o caminho de sempre. Havia mais trânsito do que o habitual. Bárbara procurou um desvio, para escapar do engarrafamento. E, aí, em vez de virar à direita, virou à esquerda. Foi acompanhando a orla até perder-se de vista. Levava consigo apenas a bolsa, carteira, batom, lenço de papel, celular e documentos. Depois de muito dirigir, estacionou o carro. Sem pensar, pegou um ônibus, entrou num trem, noutro ônibus e assim foi andando, sem destino certo.
Foram necessárias 72 horas para a polícia considerar oficialmente Bárbara como desaparecida. Nos jornais, especulava-se seqüestro. Mas, Bárbara não quis comprar os jornais.
Dissera à secretária que teria uma reunião fora e reservara a tarde para Mercedes. Ela era uma moça espetacular. Dessas de virar a cabeça de um homem. Linda, linda. O rosto de menina e o corpo delicado despistavam a mulher fogosa que era. Já estavam saindo há três ou quatro meses, mas sempre ficava ansioso como se fosse a primeira vez.
Naquela época, a Barra da Tijuca ainda era um bairro despovoado, longínquo e deserto, sobretudo durante a semana. E para ir até lá havia apenas o caminho sinuoso da costa.
As curvas da Niemeyer, o céu azul diluindo-se no mar e a brisa fresca entrando pela abertura do vidro tornavam aquela viagem um pouco do paraíso na Terra, embora soubesse estar garantindo um bom tempo no purgatório por causa desses prazeres secretos.
Mal chegara na Barra, encontrou o azar – ou, talvez, o castigo divino – bem à sua frente. Leonora, amiga de Selma, saía de um restaurante. Viu pelo retrovisor quando a fulana olhou para o seu carro. Diabos.
Pensou rapidamente. Deu meia volta, desceu a Niemeyer, deu dinheiro para Mercedes pegar um taxi e deixou-a no Leblon. Não podia perder tempo.
Chegando em casa, chamou por Selma. A sorte começava a virar. Ela estava lá, costurando no quarto.
– Ué, você em casa a essa hora?
– O dia está tão bonito que resolvi tirar a tarde para passear… você não está sempre reclamando que não saímos mais? Então, vamos dar uma volta de carro, andar na beira da praia?
Selma ficou surpresa, mas quem era ela para recusar um convite do marido? Ainda mais um passeio romântico desses.
– Vou trocar de roupa.
– Seja rápida. Ah, e coloque aquele seu vestido azul, você fica tão bonita nele.
– Qual vestido azul? O marinho?
– Não, aquele turquesa. Ele assenta muito bem a cintura.
Em menos de vinte minutos, Selma estava sentada no carro, com o vestido turquesa, a caminho da Barra.
Passearam amorosamente, de mãos dadas, pela beira do mar, como nos tempos de namorados. Que alegria. Há tanto tempo não saiam sem os garotos…
Às sete, estavam de volta. As crianças ficaram satisfeitíssimas de verem o pai tão cedo em casa.
Quando Selma dava as instruções para a empregada colocar o jantar na mesa, o telefone tocou. Era Leonora, dizendo que tentara ligar antes, mas não conseguira. Tinha visto Conrado naquela tarde na Barra da Tijuca, com uma moça loira de vestido azul turquesa.
– Era eu. – afirmou Selma – Imagine você que surpresa: ele tirou a tarde e fomos passear um pouco.
Conrado escutava a conversa extasiado. Quando a mulher desligou, não resistiu:
– Que amiga, hein, se metendo na nossa vida dessa maneira… e você tem lá que dar satisfações para ela? Ela é que tinha que dar satisfações… diga-me uma coisa: pode-se saber o que ela, uma mãe de família, estava fazendo na Barra da Tijuca numa quarta-feira à tarde? Ou você vai dizer que ela também foi com o marido?
Domingo de sol, início de campeonato brasileiro, Fluminense X Botafogo. 40 mil pagantes no Mário Filho e apenas oito roletas disponíveis para entrada de torcedores com ingressos de arquibancada. Centenas de pessoas se espremiam para passarem entre as barras de ferro, que levariam à entrada. Todos, evidentemente, querendo entrar antes do início da partida. Caos.
Não era um jogo qualquer, três contratações de peso estreariam no time do Fluminense. Um atacante da seleção brasileira, um meio-campo de renome internacional e um dos melhores zagueiros do mundo, revelado no clube, que retornava ao time.
Contrariando conselhos vários, Dalila resolvera ver o embate, apesar dos oito meses de gravidez: pois se ela ia acompanhada do irmão, do primo e do cunhado (que não chegava a ser um “Palhares”…)
O marido, que conhecera na arquibancada, estava num avião, cruzando o Atlântico, voltando de viagem de trabalho. Se não fosse isso, sem dúvida seria mais um a acompanhá-la, pensava.
Quando viu a multidão e o empurra-empurra, contudo, começou a rezar. Como é que só deixam oito roletas abertas numa estréia de campeonato?
Seus três companheiros de aventura a rodearam, para garantir a proteção da barriga, quando apareceu um homem-armário, desses 4X4, furando a fila, ou melhor, o amontoado de gente. O cunhado, baixinho e abusado, veio ao seu socorro: calma aí, a moça está grávida, deixa ela passar, depois você passa, eu não vou agora não (ele era abusado, mas não era nada burro).
O sujeito olhou bem aquele rapaz baixo como o quê e falou: está certo, tricolor. Abriu os braços, segurando o fluxo de pessoas atrás dele, deixou Dalila passar e arrematou: agora é a vez do russo baixinho; pode ir camarada, também sou fidalgo.
Fidalgos sentados, o juiz apitou. Jogo tenso. Pressão dos dois lados. O Botafogo saiu na frente, em falha bizarra da defesa, nas costas do lateral esquerdo. Dez minutos depois, o alvinegro marcou de novo, em cobrança de falta perfeita, no ângulo direito do travessão. Um chute indefensável.
Com o sol na cabeça e o nervosismo de torcedora, Dalila um pouco tonta começou a pensar se sua mãe, irmã e demais “conselheiros” não estavam certos. Para ver esse desastre era melhor ter visto pela TV. Melhor sofrer em casa do que na multidão.
Fosse o nervosismo, fosse o calor, fosse o mesmo a boa hora, Dalila começou a ter contrações regulares. O médico tinha acalmado: é normal sentir contrações nos últimos meses, você só precisa se preocupar quando elas forem regulares, em intervalos menores do que cinco minutos.
E, naquele momento, o motivo de preocupação de Dolores era outro: o caminho do gol.
Aos 34 do segundo, o atacante de seleção matou a bola no peito dentro da área, ajeitou com pé e chutou de canhota, na chegada do zagueiro adversário, no contrapé do goleiro. A torcida vibrou, mas era um gol tardio. Restava torcer pelo empate.
Ele veio. Aos 42. Cobrança de escanteio, bola no segundo pau, o zagueiro que à casa retornava subiu mais do que seus dois marcadores e não deixou margem para reclamação.
Dalila pulando e abraçando quem quer que estivesse ao seu lado, gritava tanto que percebeu que seu grito não era apenas pela virada, mas também de dor. Foi quando ouviu um desconhecido, falando por trás dela: A grávida está vazando…
Era a bolsa d’água. O irmão queria sair dali imediatamente para levá-la para a maternidade. Mas, faltavam cinco ou seis minutos para terminar o jogo. E o Fluminense é o time do último minuto, ela não podia sair antes do apito final.
Ainda faltava o novo meiocampista deixar o seu, e não arredou o pé. Sua fidelidade de torcedora foi recompensada. Aos 47, do segundo, depois de um passe magistral em que a bola cruzou quase todo o gramado, o ídolo deu um chute de fora da área à toda velocidade, deixando o goleiro zonzo.
Enquanto ela ligava para o médico, o primo – o mais jovem dos quatro – corria rampa abaixo, atropelando quem estivesse pela frente, para buscar o carro e pegá-los na saída. Dalila andava mais devagar, amparada pelos outros dois.
A parada do carro na frente do Mário Filho, para embarque da parturiente, do irmão e do cunhado, interrompendo o trânsito, valeu uma multa. Não adiantou explicar para o guarda municipal que era uma situação excepcional, nem dava tempo.
A nenem nasceu menos de uma hora depois, sem a presença do pai e sem anestesia. Assim que o marido de Dalila chegou à maternidade com as malas e o jetleg, soube das peripécias da esposa. Em decisão de última hora, resolveram trocar o nome da menina, em vez de Andréa, chamaram-na Maria Vitória.
Parada, sob o portal, percorreu os olhos pela sala, respirou fundo, apagou a luz e bateu a porta. Apertou o botão do elevador e, enquanto esperava, teve um estremecimento. De novo aquela sensação de não pertencimento.
O elevador parou. Firme, avançou para dentro, mais para escapar dali do que por decisão. A simpática senhora do 9º andar sorriu, perguntou como ela ia, fez considerações sobre o tempo e o jardim. Ao que ela respondeu animadamente, não porque o assunto a interessasse, ou por estar no mesmo estado de espírito da outra, mas por educação. Ou, seria mais adequado dizer, para não deixar transparecer seu ânimo. Não. Não hoje, não quando vivia essa maldita sensação de equívoco.
Sorriu, segurou a porta, desejou bom dia. Grande dia. Pelo menos o céu azul claro, sem nuvens, fazia as folhas mais verdes.
E foi olhando para as copas das árvores que virou a esquina.
Cristóvão era apaixonado por sua mulher. Já estavam casados há seis anos e ele continuava olhando para ela como se namorassem há menos de um. Os amigos próximos invejavam. Os menos próximos desconfiavam: tem caroço nesse angu.. um dos dois tem amante, não é possível uma coisa dessas.
Perto do sétimo aniversário de casamento, Mariana descobriu que estava esperando neném. Não foi exatamente uma gravidez planejada, mas não também não era algo fora de cogitação, para ela.
A moça ficou um pouco apreensiva de dar a notícia, não sabia como o marido reagiria… não era exatamente a hora certa… e eles nunca tinham conversado seriamente sobre o assunto.
Qual nada. Cristovão ficou eufórico: será um varão, tenho certeza! E foi.
Na véspera do Natal, deram entrada na maternidade, para sair duas noites depois com um menino enrolado na manta. A mãe passando bem, o pai embevecido.
A partir desse dia, as conversas de Cristovão mudaram. O futebol deu lugar ao orgulho do primeiro dente, do sentar sozinho, do falar “papá”, dos passos vacilantes. Os amigos não estranharam o entusiasmo do rapaz com o filho: Cristovão sempre fora um homem apaixonado. Mas percebiam que havia algo fora do lugar.
Um dia, foram surpreendidos com a notícia de que Cristovão e Mariana iam se separar. Como assim? E aquela paixão toda?
Pois é. Cristovão amava a moça, sinceramente. O problema foi que quanto mais mãe ela era, menos tesão ele sentia. Como poderia desejar a mãe do seu próprio filho? E ela, infelizmente, era uma mãe muito dedicada.
Vai entender. Os amigos muito próximos, aqueles dois que são como se fossem irmãos, disseram para ele que uma coisa era uma coisa e a outra coisa era outa coisa. Nada feito, ele estava decidido.
Dez meses depois, Cristóvão conheceu Dolores. Dolores já tinha dois filhos, um menino e uma menina, e como não queria ter mais, fizera a cirurgia. Perfeito para Cristovão. Sem riscos de acontecer a mesma como da outra vez, resolveu pedir a moça em casamento.
Foram felizes… por três anos. Logo Cristovão se afeiçoou aos meninos – afinal, eles moravam com ele – e começou a se sentir um pouco pai, percebe? Resultado: novo divórcio.
Fernando tentou intervir: não é possível, cara, a Dolores é uma mulher belíssima! Mas, é mãe. E mãe é sagrada. Ponto.
Dali por diante, Cristovão, aquele homem apaixonado, não quis mais se envolver com ninguém. Pelo menos não enquanto não conhecesse uma moça inteligente, bonita, carinhosa e estéril.