Estevão

A questão é a seguinte: sou uma pessoa atenta a oportunidades. Pode me chamar de empreendedor, se quiser. Embora, para falar a verdade, acho essa história de atualmente tudo ser chamado de empreendedorismo uma bobagem.

O que eu posso dizer sobre mim é que ao ver uma boa oportunidade, vou atrás. Faço todo o possível, e até um pouco mais, para a oportunidade virar realidade. Sempre fui assim, desde criança. Fiz disso o meu trabalho por eu não saber ser de outra forma. No fundo, sou um jogador. A diferença com outros apostadores é que não me interessam os jogos de azar, mas ações, empresas, negócios, eventos.

E não se trata exatamente de gostar de sentir aquele frio no estômago, da adrenalina da aposta. Estaria faltando com a verdade se desse a entender isso. Não sou aventureiro. Não é esse, definitivamente, o ponto.

E, veja bem, tampouco me é indiferente perder, ou ser rejeitado, ou ter que admitir que fui idiota e que minha avaliação inicial revelou-se um equívoco contundente. Sofro, sim, quando as coisas não ocorrem como previ. Mas sei que sofrerei mais se concluir, depois, que aquela era de fato uma grande oportunidade e que eu deixei escapar por não ter assumido o risco.

É isso. Era isso o que eu queria explicar sobre mim: tenho mais medo de me sentir um fracassado por não ter tentado do que de ter a tristeza de perceber ter me iludido com algo que não era o que parecia ser. – Bebe o expresso num gole e olha para a xícara antes de prosseguir – Você deve estar se perguntando por que a chamei para tomar um café e dizer isso tudo para você, nesse momento.

Eu estou falando isso porque vi em você uma boa oportunidade. A melhor desde que me separei, há quase dois anos. Você é interessante, espirituosa, gentil, divertida, inteligente, boa companhia. E me parece ser uma pessoa centrada, daquelas para quem estar com o outro é um prazer e não uma necessidade.

Sei que não sou um homem bonito, nem estou lá em grande forma. Não tenho muito a oferecer num primeiro momento além da minha franqueza.

E quero dizer que eu também sei ser romântico. Não fiquei casado catorze anos tratando minha mulher como se ela fosse um negócio. Claro que não. Sei que as mulheres gostam de romantismo e uma outra abordagem seria mais eficaz. Se digo isso tudo assim de supetão é porque eu tenho um vôo para pegar daqui a pouco e precisava falar isso antes de ir.

A viagem é importante. Pode ser que eu feche um bom negócio. Eu poderia, simplesmente, pedir o seu email com a desculpa de querer depois a referência de um livro ou algo assim. E aí começaria o flerte, como já fiz outras vezes.

Mas, justamente por achar que você é a grande oportunidade, não faz sentido para mim fingir que quero outra coisa. Então foi por isso que falei tudo o que falei. Para perguntar se posso tentar conquistá-la.

Se você disser que não, vou ter que pensar rápido e avaliar a situação: deixo o outro negócio escapar, entrego a chance para um concorrente, e fico aqui até convencê-la, ou embarco, passo duas semanas fora e, aí, até eu voltar, você já pode estar com outra pessoa. Se isso acontecesse, eu teria perdido a possibilidade de viver o que acho que podemos construir.

É um risco que terei que assumir. É um risco que assumo consciente. – faz um gesto para o garçom, pedindo que feche a conta – E então, posso ou não entrar no carro e zarpar para o aeroporto?

Ana Clara

Ana era experiente, marcada, desiludida. Tinha vivido, se entregado e perdido. Chorado, tentado, feito concessões, chegado ao seu limite, esquecido.

Clara era jovem, apaixonada, sonhadora. Mesmo quando não tinha ninguém específico em vista. Acreditava no futuro e no amor. Via beleza na vida. Sabia que mais cedo ou mais tarde encontraria o homem com quem partilhar sua história, suas emoções, suas dúvidas, suas questões, seus pequenos sucessos, seus fracassos.

Ana protegera-se. Acreditava que amor seria sempre ilusório. Uma invenção cultural. Uma utopia só possível de existir se as duas pessoas estivessem muito determinadas a acreditarem nela. A monogamia  não seria natural, mas culturalmente determinada… No entanto, seríamos seres culturais, estando fadados a sofrer com desejos duplicados, traições, insatisfações. Com o tempo o desejo sempre diminuiria, a rotina se instalaria, as responsabilidades partilhadas afastariam o casal e a felicidade escorreria. Ana teorizava ao invés de sentir.

Para Ana, Clara era ingênua. Sorria para ela, pensando, em seu íntimo, que um dia Clara superaria essa fase. A juventude era sempre adorável, cheia de projetos, esperanças. A juventude acreditava no potencial transformador dos indivíduos sobre a humanidade. Mas isso passava.

Clara queria a paixão.  Queria romance e não namoro. Queria sentir-se desejada. Queria flores, mimos, chocolates, voz derretida ao telefone, sexo gostoso, palavras doces, emails fofos. Queria ser lembrada nas pequenas coisas e momentos do dia, ser o primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir. Queria que, a cada vez que o outro experimentasse uma comida gostosa, visse um filme bom, tivesse uma boa notícia, quisesse dividir com ela. Clara queria estar nos detalhes. Mas, queria, também, partilhar a vida, dividir as grandes e pequenas coisas cotidianas, consolar e ser consolada quando estivesse triste, abraçar quando viesse o choro. Dizer “tudo vai dar certo” para preocupações e momentos difíceis.

Ana achava que essas coisas só existiam nos primeiros três ou quatro meses de uma relação. A opção por uma relação longa inviabilizava a paixão. Para ter essas coisas, seria preciso estar sempre começando. Então, ouvia Clara e balançava a cabeça. O que ela queria era inconciliável com coisas como filhos, família, vida de gente grande.

Ana poupava Clara, não contava o que realmente pensava, pois, no fundo, respeitava aquele vigor, era tocada pela juventude da outra. Ela apenas dizia, “vocês, jovens”. E Clara ria. Sabia não encontrar eco em Ana, dava de ombros e respondia: “duvido que você também não queira isso”.

Era esse o único assunto em que discordavam. Em todo o resto sintonizavam: política, religião, futebol.

O problema – o principal problema – é que Ana e Clara habitavam uma mesma e única mulher.

Miguel

Já estava com mais autonomia. Fora difícil, mas aprendera a sentar sem ajuda. De início, tentava se levantar puxando a cabeça e o corpo para frente; mas, talvez de tanto observar, talvez por mero acaso, talvez,  quem sabe, por ter pensado uma estratégia, descobriu que bastava se virar de bruços, encolher as pernas como se engatinhar fosse, dar um pequeno impulso e pronto: estava sentado. Uma vez descoberto o mecanismo, ficara fácil. Sempre que alguém o colocava deitado, em instantes sentava. Agora era ele quem decidia, e, sentado, podia ver o mundo de frente.

Descobrira também, pouco depois, que, quando se apoiava em suas mãos e seus joelhos, locomovia-se mais rapidamente do que arrastando a barriga pelo chão.  E com um pouco de treino, adquirira agilidade. Teve até aquela vez na qual a mãe bobeara, esquecera a porta do banheiro aberta quando saíra do quarto para pegar a chupeta na sala e ao voltar, não encontrara ninguém por perto.

Ela chamara o nome dele, algumas vezes, mas ele fingira não ouvir, porque estava mais interessado em explorar o território novo, aquele lugar que sempre tinha a porta fechada na sua cara, quando estava prestes a entrar. Dessa vez, não. Quando a mãe o encontrara, ele já estava com a mão molhando-se naquele vaso branco e grande. E não entendera porque a mãe ficara brava, tirara a mão dele de lá e colocara uma e outra debaixo de mais água, que saía de um tubo prateado, enquanto ele tentava mexer naquela coisa redonda e brilhante ao lado do tubo.

Mas o que ele queria mesmo, era ficar em pé como todo mundo. Estava sempre procurando apoio para se levantar: o sofá, a cama do irmão, a grade do berço, a estante – que, aliás, proporcionava a satisfação extra de ligar e desligar a televisão. Sempre tinha alguém que gritava com ele, e o tirava dali, principalmente quando a televisão já estava ligada, mas isso não o impedia de ir até lá, engatinhando, levantar-se, aproximar-se da TV e estender o dedinho para botão redondo, mesmo se estivesse ouvindo: “não, Miguel, não; Miguel, não pode; eu disse: não pode”.

E daí, que não podia? E quem disse que era para ele conhecer a palavra não? Se ele queria entender aquele negócio que se iluminava de imagens coloridas e sumia quando apertava o botão, porque iria parar? Era mais legal do que mostrar aos outros que já sabia o significado de não.

Uns dias atrás, aprendera a ficar em pé sem apoio, saindo do chão. Ficava de cócoras, dava impulso e levantava-se. Não era algo muito pensado, e, geralmente, quando percebia que estava ereto apenas sobre os seus próprios pés, desequilibrava-se e sentava-se novamente. Sempre se surpreendia, porque era só se levantar e todos batiam palmas. Ele sorria também, como fazia ao ver outras pessoas rindo, mas, sinceramente, não entendia muito o motivo de tanto aplauso.

Agora estava tentando tirar o papai do que os outros chamavam de celular. Ele gostava de brincar com aquilo e dessa vez estava vendo o seu pai lá dentro. O seu pai era aquela pessoa que jogava ele para cima e, da última vez que estivera com ele, o colocara sobre os ombros, e ele pudera ver tudo lá do alto. Até para ver a mamãe, ele tivera que abaixar a cabeça.

Pois bem. Ele via o papai, ia com seus dedinhos e puxava o rosto dele, mas o papai continuava lá dentro. Balançava o brinquedo, sacudia, batia no chão. E ele continuava lá. Resolveu lamber o papai e esticou a língua: em vez de sentir a pele e o seu gosto, sentiu uma superfície reta e fria, que nem aquela de quando via o outro neném no colo da mamãe, na sua frente, embora soubesse que era a mamãe quem o estava segurando no colo. Era estranho: de uma hora para outra tinha duas mães: uma na frente dele e uma que o segurava. Quando ia pegar o neném da sua frente, colocava a mão numa coisa fria, reta e dura, que não parecia pessoa.

E era exatamente o que estava fazendo – lambendo o brinquedo – quando ele fez um barulho alto e tremeu. Miguel levou um susto e a mãe tirou o celular imediatamente de sua mão, apesar de ele ter feito o seu melhor protesto, de ter chegado a contorcer o corpo e a insinuar um choro. Mas aí, a mãe devolveu o celular para ele: “É a vovó, fala com ela”

Pronto, o mais esquisito de tudo, ouvia a voz dela – daquela pessoa sorridente que tinha um colo gostoso e sempre dizia “cadê minha vovó” quando encontrava com ele ­– mas não tinha vovó nenhuma ali. Olhou para um lado, para o outro, virou o celular ao contrário para ver se ela aparecia lá atrás, que nem o papai. E mesmo assim, nada de vovó.

Começou a chorar, dessa vez, de verdade. E a esfregar seu rosto no peito da mãe e tentar puxar aqueles panos que a cobriam, escondendo o que ele queria. Seu cansaço era quase dor. Precisava de ajuda quando sentia sono; apesar de tudo que já aprendera a fazer sozinho, ainda não sabia o que fazer com aquilo. A mãe entendeu, ajeitou o menino, levantou a blusa e, logo, logo, ele estava se acalmando com aquele leite morninho e doce que era seu por direito.

Liliane

Tinha sido seu primeiro namorado. Eram muito novos quando começaram. Terminaram, um par de anos depois, meio sem saber porquê; talvez por ainda serem muito novos.

Guardaram, contudo, a ternura – e como não dizer? – o amor de um pelo outro ao longo da vida.

Antes de se afastarem, haviam combinado: se aos trinta estivessem sozinhos e sem filho, teriam um filho juntos. Como se fosse simples assim, ter um filho, e como se trinta anos fosse tarde demais.

Por muito tempo manteve a distância: volta e meia tinha notícias dele, apesar de pouco encontrar. Soube que tinha casado, soube que tivera uma filha e um filho. Acompanhou algo da sua carreira de ator. E sempre que lia ou ouvia seu nome sentia um gosto gostoso na boca, sabor de boa lembrança.

Por isso não foi exatamente uma surpresa quando, após encontrá-lo ao acaso e receber o convite pessoal para algumas de suas peças, acabara uma dessas noites com vários chopes e uns tantos beijos.

Era para ter sido apenas aquilo. Uma noite inconsequente, só  para matar a saudade. Tinham passado dos trinta, e se sentiam tão jovens. Mas, não foi. Não era um qualquer, ora bolas, era o Marreco. O Carlos Marreco, seu primeiro amigo, seu primeiro amor.

Nessa segunda vez, a paixão viera aos poucos,  reconstruída a cada encontro esquivo, reencontrada a cada telefonema de meio da tarde, até ser revivida a cada beijo, a cada toque.

Nunca pensara que se relacionaria com um homem casado. Era a amante, a vilã de novelas mexicanas, o pesadelo de suas amigas comprometidas. No entanto, não conseguia se sentir culpada; era o Marreco, afinal… ela era anterior a tudo aquilo e evitava, acima de tudo, criar embaraço para o amado, mantendo etiqueta rígida de amante discreta: nada de telefonemas, nada de aproximação em finais de semana, e quando precisava ou queria falar alguma coisa mandava um SMS dos mais neutros e secos possíveis, sem assinar, sem carinho que a denunciasse.

E tudo estaria mais ou menos sob controle não fosse seus colegas de trabalho. Trabalhava há quase dez anos na mesma empresa, no mesmo setor, com as mesmas pessoas. Como os outros estivessem em relacionamentos longos (alguns casados, outros em namoros eternos), levando suas vidas sem grandes surpresas e novidades, numa rotina dividida entre jantar e cinema, logo desenvolveram um interesse neurótico pelas histórias de Liliane. Estavam sempre perguntando sobre seus finais de semana, suas azarações, seus romances, suas muitas viagens – a vantagem da solteirice era gastar suas férias e todo o seu dinheiro explorando lugares dos sonhos.

E apesar de quererem saber tudo, de terem um interesse neurótico por cada  detalhe, de darem a ela a impressão de estarem vivendo uma vida nova que não as suas através daquelas histórias, eram pessoas casadoiras, pessoas de família, que, tinham posturas contraditórias: se por um lado ficavam eletrizadas com aquela solteirice assumida, por outro acreditavam que o melhor para Liliane era casar-se, ter filhos e cumprir o destino de uma pessoa na terra.

Por isso, não achara de todo estranho que eles, num determinado momento, deixassem de pensar ou de classificá-la entre as moças solteiras, na hora de apresentar pessoas ou de a contar entre os que solteiros iriam a determinada festa: ela era irrecuperável.

Irrecuperável ou não, perceberam que havia algo diferente, perceberam a chegada de Marreco em seu cotidiano. O problema era que algumas pessoas tinham conhecido o ex no primeiro dos shows. E sabiam que era um homem casado. Então, quando Liliane apareceu de sorriso novo nos lábios, insistiram até descobrir dos encontros: “mas não é aquele seu amigo casado, não, né?”

Não… é outro. Sim, sim, era ele mesmo, o próprio, mas o tom de repreensão da pergunta impediu que pudesse dizer qualquer coisa. A partir daí, não teve sossego. Teve que dividir o amante em dois: o Marreco, ator, ex namorado, e o Carlos, professor, amigo de infância, seu romance atual.

E antes que percebesse, era ela quem estava inventando desculpas, criando histórias, escondendo coisas, atendo o telefone no banheiro, mandando SMS quando não podia falar na frente dos outros, preocupando-se para onde ia, o que fazia e quem estava vendo os dois.

Enquanto ele, com um casamento já sem paixão, com a mulher – mais velha do que ele – preocupada com a própria carreira, apenas avisava: “hoje vou chegar tarde”. E só. Sem mais perguntas, sem mais respostas.

Clarice

Chorou, chorou, chorou. Dormiu de pura exaustão. Levantou da cama porque não sobrara mais sono. Chorara em seus sonhos. Escovou os dentes, lágrimas escorreram dos olhos que não pareciam seus, no reflexo do espelho.

Fez seu desjejum. Olhou para o céu: lindo dia, e chorou. Foi ao banco, pagar certas contas, de óculos escuros.

Sorriu bons dias forçados para colegas de trabalho, porteiros, ascensoristas. Chegou em casa, chorou seu fracasso, chorou a casa vazia, chorou a vida estéril, chorou as oportunidades perdidas.

Pegou um livro na estante. Chorou o Búfalo onde era sempre tão mais fácil amar. Não desmaiou, mas em sua sala, como no texto, era primavera insistente, zoológico e montanha russa.

Chorou mais um pouco. E mais um pouco.  Chorava porque era primavera para todos, menos para ela. Chorava porque não aprendera a odiar. Chorava para não perder o hábito.

E, aí, de uma hora para outra, sem sequer ter visto os olhos desafiadores do búfalo, parou de chorar.

Jean

Primeiro foi o choro incessante do bebê do vizinho. Que acordou o cachorro. O dele, não o do vizinho. Que foi para a sua cama, a dele, não a do cachorro. E começou a lambê-lo sem parar, e a latir entre uma lambida e outra. E o despertar foi inevitável, às cinco e meia da manhã de um sábado.

Belo início de fim de semana. O seu e o do vizinho, não o do cachorro, que não percebia a ironia da frase, nem sabia o que era dia da semana. Só abanar serelepe o próprio rabo.

Levantou-se para beber água, ele e não o cachorro, que o seguiu, latindo e pulando em círculos à sua volta, daquele jeito que ele jurava que se não fizesse algo a tempo, ou o cão desistia do dono, ou aprendia a falar.

Entregou os pontos, ele e não o cachorro, entendeu a conversa, pegou a coleira e saiu para um passeio mais que diurno na beira da lagoa. Alvorada lá no morro, que beleza. Ninguém chora não há tristeza, ninguém sente em dissabor. O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo, e a natureza sorrindo, tingindo, tingindo.

Ruas desertas, logo perceberam, os dois, ele e o cachorro. Era um sábado, afinal. O cão o puxava pela coleira. Não andava, sonambulava. Ele. O cachorro ia despertíssimo, farejando o chão animadamente.

Volta e meia, um ou outro bêbado saía de um prédio, rindo alto. Com roupa de noite (a dos bêbados, não a dele), e cara de véspera. A dele também, não a do cachorro.

De volta para a casa, a dele, perdera o sono. Sem nada para fazer, ligou o computador. Ele e não o cachorro. Disse que leu notícias online, respondeu emails pendentes, comprou um livro que lhe pareceu interessante, leu mais notícias, viu três ou quatro vídeos no youtube, entrou no Facebook, resolveu experimentar a Farmville, respondeu alguns quiz e descobriu qual banda, qual filme, qual ator de Hollywood, qual romance perdido, qual casal famoso, qual diretor de cinema, qual música dos Beatles, qual raça de cão que era.

Que, embora adiasse, sabia bem o que era importante, para seu trabalho e não o para o do cachorro;  mas não tinha disposição para encarar, às sete da manhã, aquele processo que trouxera do escritório e que seria a sua tarefa, não a do cachorro, antes de o domingo terminar.

E que,  quando o sol entrou mais forte na sua sala, voltou para a cama. Conseguiu dormir mais um pouco, para fugir ao processo, ele. O cachorro, ao pé da cama, já roncava há tempos.